16 de jan de 2011

CRIME OU TRAGÉDIA? Relato dos Sobreviventes.


  Chega a 600 o número das mortes confirmadas na tragédia do Rio. (15/01). São centenas de desaparecidos e ainda há muitas regiões onde o socorro sequer chegou o que provavelmente fará aumentar ainda mais o número das  vítimas desta terrível tragédia.
TRAGÉDIA OU CRIME?
A ocupação das encostas da Serra do Mar é crime sim, crime e displicência, irresponsabilidade do homem e dos órgãos fiscalizadores. Sabemos que as chuvas intensas são parte integrante da região da serra, então, há regiões em que o homem ...nem deveria pensar em ocupar. Esta tragédia não é a primeira e não será a última, se não for fiscalizada a ocupação irregular desenfreada e muitas vezes algumas até com a anuência das prefeituras, ou fiscais corruptos que facilitam o habite-se mediante gorjetas generosas.

Quem ainda se recorda da tragédia ocorrida em Caraguatatuba na década de 60 que também vitimou milhares de pessoas? O que mudou de lá pra cá? Nada! Só piora cada vez mais...

É preciso mais rigor e uma conscientização nacional para a preservação do meio ambiente, porque a Natureza, ela continua seguindo seu curso normal e a nós cabe chorar os mortos inocentes que muitas vezes ocupam estas áres por não terem outra opção, e porque o nosso governo acha muito mais bonito dar uma esmolinha básica pra fazer de conta que tudo está as mil maravilhas, promovendo a vagabundagem, do que dar opções de real trabalho e crescimento ao povo para que todo este quadro se modifique de fato.

Daqui a pouco o assunto satura, a midia silencia, todos esquecem, metade das doações não chegam aos necessitados ....e o problema fica alí a espera da prox. tragédia..


Os relatos a seguir são muito fortes. Foram colhidos por repórteres  assim que estes alcançaram o local da tragédia. Não é recomendada a leitura para  pessoas hipersensíveis ou hipertensas.


"É horrível, muito horrível", disse Vicente Luiz Florente, um construtor de 50 anos de idade, que chegou para procurar seu irmão. "Esta era uma comunidade, agora todos podem ver, só tem escombros."


Alguns metros dali, as equipes de resgate descobrem mais cinco corpos, sendo um deles uma criança cujo corpinho acabou de ser retirado dos escombros, envolto em um saco preto e todos enviados para o necrotério local em uma ambulância coberta de lama.


"Os moradores daqui têm-nos dito que apenas nesta área há 300 mortos", disse Levi Ribeiro, 47, um funcionário da defesa civil em busca de sobreviventes no bairro de Posse. "Nós viemos aqui hoje para atender as pessoas que ainda estavam vivas e trazer-lhes comida, mas já vimos quatro corpos, alguns deles crianças. Não tenho dúvidas de que vai chegar a 300 mortos aqui."


"Eu perdi a maioria dos meus amigos e primos", disse António Diniz, um construtor de 42 anos de idade. Em torno dele barracos de tijolos vermelhos foram submersos em mais de um metro de lama. Diniz disse que encontrou o corpo de um amigo a uma distância de dois quilômetros de onde ele havia desaparecido, arrastado pelo deslizamento de terra.


"Quase todos os nossos amigos estão mortos", disse Renata Diniz, 28, quando ela conduzia uma mulher de 83 anos que tinha perdido a sua única irmã nos deslizamentos de terra, através de um rio transbordado. "O rio está subindo. Vamos", disse ela em lágrimas.


"É uma cena terrível", disse José Ricardo Ferreira de Aguiar, enquanto ele afastava uma lona e entrava no necrotério improvisado em Teresópolis, na garagem da delegacia. No piso de concreto, 100 corpos, desde recém-nascidos até idosos se amontoavam envoltos de lama, numa mistura cnfusa de braços e pernas.


De quatro em quatro, os parentes foram levados para identificar seus entes queridos cobertos de papelão, folhas e cobertores enlameados. "Isso não parece humano", disse Aguiar. "Nós nunca vimos nada parecido."


Mario Macario, 22, um estudante , disse que alguns colegas seus do curso de turismo estavam faltando. "A estação está um caos. É uma calamidade pública. Nunca vi nada parecido."


O necrotério de Teresópolis que tem 14 unidades de geladeira para cadáveres, não foi suficiente e só ontem 146 corpos tinham chegado, 46 tiveram que ser colocados nas proximidades de uma igreja abandonada.


"Era uma em 100 milhões de chances de que algo assim pudesse acontecer", disse Rodrigo Liberato que havia perdido sua casa e seus amigos... Ele passou mais de 30 horas sem dormir procurando por pessoas soterradas.


"Eu estou vivo - felizmente ou infelizmente, eu não sei", acrescentou o seu vizinho, Jorge Aldeia, 67, cuja casa foi levada encosta abaixo.


Quando a noite caiu, Marquinho Maia, um voluntário, ainda conduzia as famílias para o necrotério para identificar seus entes queridos. "É terrível", disse ele. "Assim como um filme de terror."


Carlos Portela, 53, pediu aos repórteres para ajudarem uma família que ficou presa em uma fazenda isolada. "Um tem ferimentos na cabeça, o outro quebrou as costas. Precisamos de um helicóptero."


"Quase todo mundo aqui em Teresópolis conhece alguém que morreu", disse Ribeiro, funcionário da defesa civil, acrescentando que algumas pessoas relataram terem encontrado corpos presos em árvores. "É a maior catástrofe que a cidade já viu"


Fernando Rodrigues,41, estava tentando salvar o pouco que restava de seu bar. "Temos que ficar alerta", disse ele, olhando para o céu escuro sobre a colina onde dezenas de casas estavam prestes a desabar. Fernando Rodrigues conta que acordou com um estrondo. Eram 03:30h.
"Foi aterrorizante", disse ele, sobre o deslizamento de terra que atravessou sua casa na madrugada e matou muitos dos seus amigos. "Havia carros voando por toda parte. Estava escuro. Só se ouvia as pessoas gritando."


Mais acima, na encosta, Sullivan Santos, 23, descia carregando um colchão lamacento sobre a cabeça enquanto ele se preparava para deixar Campo Grande, um dos bairros mais devastados. "Todo mundo está morto", disse ele.


Poucos acreditam que o número de vítimas vai ficar nisso. O cheiro forte de decomposição ao redor da casa de Rodrigues sugere que o número pode aumentar significativamente.


"As famílias foram enterradas vivas enquanto dormiam."




"É horrível, muito horrível", disse Vicente Luiz Florente, um construtor de 50 anos de idade, que chegava para procurar seu irmão. "Esta era uma comunidade, agora vejam, só tem barro e rochas."


O cemitério Carlinda Berlim, em Teresópolis, antes era um local tranquilo cercado pela vegetação verde das montanhas. Agora ele se transformou em uma vala comum que mais lembra uma zona de guerra do que uma cidade turística do sudeste do Brasil .


Refletores foram colocados ali para permitir enterros durante a noite. Uma escavadeira amarela e uma equipe de voluntários exaustos cavaram mais de 160 covas rasas para o enterro coletivo das vítimas deste que está sendo chamado de um dos piores desastres naturais da história do país.


"Ontem nós enterramos 92", disse Paulo Vitor Lopes, 22, recepcionista do cemitério e que agora estava trabalhando como coveiro e com a incumbência de registrar numa folha de papel todos os detalhes das pessoas que iam sendo enterradas. "Nós não sabemos quantos mais virão hoje." disse ele.


"Há crianças, os adultos", dizia desolado Vitor da Costa Soares, 27 anos, outro coveiro voluntário.


Com seis dos nove cemitérios da região destruídos ou isoladas desde quarta-feira, o Cemitério de Carlinda Berlim tem recebido"99% das vítimas. Estão todos vindo para cá", disse Luiz Antonio da Costa, assistente social que estava coordenando os enterros. Ele apontou para a vala comum onde as vítimas seriam colocados para descansar.


À medida que o número oficial de mortos do desastre ultrapassou de 500, foi montada uma equipe de cerca de 25 coveiros, que trabalhavam sem descanso das 07:00h da manhã até 01:30 da madrugada, enterrando corpos em covas rasas abertas na terra vermelha cheia de cruzes de madeira enumeradas.


Mais um caixão chegava. Dentro estava o corpo de Marcela Santos, uma dona de casa de 29 anos de idade que morreu salvando o filho de cinco anos de idade.
"Isso tudo caiu", disse o tio Elinito Santos, 51, enquanto o caixão descia amarrado em cordas, na cova de número 145. Parentes choravam de tristeza: "Deus esteja com você, Marcela."
"É difícil, tão difícil", disse um primo de Marcela. Ela salvou a criança e a avó. Ela não merecia isto."


Na entrada do cemitério, Mara Lilian Brandão, esperava para enterrar a irmã mais nova, Luciana Mara, que morreu na favela de Campo Grande, uma das áreas mais atingidas de Teresópolis. Uma outra de suas irmãs, Mara Lúcia, disse que o número de mortos em Campo Grande poderia aumentar dramaticamente nos próximos dias. "Dos 1.000 residentes de lá, 80% morreram", disse ela.


Na capela B o corpo de Rayane S Pereira estava aguardando a sua vez."Sua família inteira morreu", explica Vera Lúcia, 62 anos, que estava ao lado enquanto aguardava o sepultamento de sua mãe idosa.


Um pedaço de papel escrito tinha sido colocado no caixão marrom-claro de Rayane. Abaixo do seu nome e número da sepultura, uma inscrição de João, capítulo 11, versículo 25: ". Eu sou a ressurreição e a vida Quem crê em mim, ainda que morra, como todos os outros, vai viver de novo."


Fábio Magalhães, um funcionário do cemitério, ao lado de um caixão lacrado, com quatro parafusos de metal preparava o sepultamento. "Uma criança", disse ele.


O número oficial de mortos que ultrapassou 527, (em 14/01), está sendo considerado o pior desastre natural que o país já teve e equipes de resgate ainda não chegaram a algumas das áreas mais atingidas - incluindo um bairro onde 150 casas teriam sido varridas. O número de vítimas pode subir consideravelmente.




"Esta família não existe mais", dizia a manchete de um jornal do Rio, ao lado da foto de uma designer de moda e ex-funcionária da Newsweek, que foi enterrada ao lado de oito parentes.


Edredons lamacentos cobriam aqueles que já haviam sido identificadas e tinham etiquetas de papel com o nome amarrados aos seus pés.



Falando após um vôo de helicóptero sobre Teresópolis, o Secretário do Meio Ambiente, Carlos Minc, descreveu os deslizamentos de terra como a pior catástrofe da história da região.


"Acredito que o número de mortos é muito maior do que tem sido até agora anunciados", disse ele. "Muitas pessoas morreram durante o sono. As montanhas estão caindo. As áreas estão muito instáveis."


Angela Marina de Carvalho Silva, acredita que possa ter perdido 15 familiares na tragédia, incluindo cinco sobrinhos e sobrinhas. Ela disse: "Há tantos desaparecidos e tantos que provavelmente nunca serão encontrados.. Não havia nada que se pudesse fazer.. Foi um inferno. "


C da Silva conseguiu se refugiar na casa de um vizinho em um lugar mais alto com seu marido e filha, e viu as chuvas torrenciais levarem carros, galhos de árvores e animais junto com as casas de amigos e familiares.


"Tudo acabado. Não há mais nada. A água veio e levou tudo embora", disse seu marido, Sidney da Silva.


Quando vimos a água entrar, agimos por instinto. Subi na janela, quebrei o telhado e puxei meu pai para cima. “Ele é paraplégico”, relembra emocionado o carpinteiro Luiz Carlos Almeida Rabelo, 46.


A dona de casa Denir de Souza Almeida, 66, chora ao lembrar-se do momento. “... Quando amanheceu, a gente só viu corpo boiando na nossa frente. Foi um horror”, ela relata.


“Acabei de comprar uma televisão. Me aposentei há um mês e deixei o Rio de Janeiro para morar aqui. Comprei uma TV boa para curtir a aposentadoria. Nem paguei a primeira prestação e já foi tudo para o lixo”, lamentou Joacir, que era pedreiro. “E agora, onde é que a gente vai morar?” Que vai ser dessas pessoas que perderam tudo?


Leandro, perdeu toda a sua família e decidiu trocar a dor pelo trabalho voluntário. Não tem descansado desde  o início da tragédia e sua ajuda está sendo inestimável para as equipes de salvamento, indicando os locais para os bombeiros pois conhece muito bem a região.
“A minha família está lá em cima. Deus os colocou num bom lugar. E eu vejo que há várias pessoas que eu acho que, se eu tivesse chegado a tempo, eu poderia ter salvado” contou o pedreiro.
Leandro não tem mais ninguém agora, nem casa nem família. Quando perguntam o que ele pensa fazer nos próximos dias, ele, no seu jeito simples de falar diz:“Vamos ser humildes, amigos um dos outros, solidário, porque a população de Nova Friburgo está precisando, nesse momento”

Os relatos continuam, são milhares de histórias, uma mais triste que a outra. Cenas de horror, como nenhum filme  daqueles de  fim de mundo jamais retratou.  A tragédia não escolheu suas vítimas, foram desde bebês até anciãos, ricos e pobres sem distinçao.   
...e ele permanecerá ali, numa vigília silenciosa...esperando quem sabe, o seu dono acordar..
numa demonstração da mais absoluta e verdadeira amizade ...


 

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